Ensino Médio

2022: modernismo ou morte?

Saiba como um curso de História do Ensino Médio está estruturado para aprofundar grandes temas que dizem muito sobre passado, presente e futuro do Brasil.  

Autoria: Sônia Brandão, professora de História do Ensino Médio do Colégio Santa Maria 

“Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.”

(Oswald de Andrade, Canto de regresso à pátria, 1925)

Lidar com o ensino de História tem alguns privilégios. Um deles é abusar da construção da memória como argamassa e, tendo o distanciamento do tempo a nosso favor, poder avaliar as camadas que são sobrepostas a cada aniversário de um grande evento. Falar das efemérides é sempre um belo pretexto para as grandes discussões. 2022 fortuitamente nos oferece pelo menos duas oportunidades para repensarmos a formação do Brasil: o bicentenário da independência política do Brasil e os cem anos da Semana de Arte Moderna. Não podemos desperdiçar!

No Colégio Santa Maria, o curso de História passeia nas três séries do Ensino Médio tendo como centralidade a formação do Brasil com todas as suas contradições – desde seus povos originários, passando pela colonização, ruptura com Portugal, construção do Estado-Nação, chegando na tardia e oscilante experiência republicana. Na 3ª série, o curso Brasil Republicano e Diálogos Internacionais ocupa-se especialmente dessa fase mais contemporânea que conversa com a ascensão dos Estados Unidos, com as Guerras Mundiais do século XX e com as revoluções e ditaduras latino-americanas.

Semana de Arte Moderna

Assim, estamos prontos para participar das efemérides em dois momentos. No primeiro semestre, o mote é 1922 e sua inserção na crise da Primeira República. A República das Oligarquias é o primeiro período que estudamos, berço do voto universal, momento de resolvermos as contradições de um país recém-saído do escravismo, marcado por um autoritarismo endêmico, uma desigualdade estrutural. O primeiro pacto republicano que deu origem ao Café-com-leite morreria de causas naturais ao longo da década de 20. Foi nesse flanco que a urgência em discutir o que era modernidade e na necessidade de o Brasil inserir-se nela toma as primeiras páginas dos jornais.

Artistas visuais, escritores, intelectuais de várias frentes passam a ser porta-vozes do movimento que pretendia pensar um Brasil profundo dentro de uma estética, no entanto, para além de nossas fronteiras. A partir daí, foram muitos caminhos derivados que ora se aproximaram de movimentos progressistas politicamente, ora de um regresso conservador que avizinhava o Brasil dos fascismos europeus no entreguerras.

Essa é exatamente a discussão que as turmas fizeram no primeiro bimestre num trabalho de aprofundamento do tema. A proposta é que entendamos que a estética não se encerra nela mesma. Toda dimensão estética também é política, porque histórica, parte do espírito de um determinado tempo.

Bicentenário da Independência

No segundo semestre, quando imaginamos que inclusive oficialmente a grande data a ser comemorada será o 7 de setembro, traremos o aniversário da independência política do Brasil para o centro do debate. Percebamos que aqui temos que tomar muito cuidado porque o nascimento do Estado brasileiro já foi discutido na segunda série. O que pretendemos fazer em 2022 é atualizar esse conceito-chave no Brasil Republicano, particularmente, imaginando as nossas duas experiências ditatoriais (1937-1945 e 1964-1985) e dois grandes períodos de respiro democrático no país (1946-1964 e 1985-hoje).

Lembremos que as alianças políticas em 1822 permitiram tecer um tipo de transição para o Império que não abriu espaço para a remodelagem econômica, estreitou os laços de dependência comercial e financeira sobretudo com a Inglaterra e manteve estruturalmente a escravidão. Só para acrescer, a Constituição de 1824, que oficialmente instituiu a monarquia, consolidou um Estado autoritário, centralista, escravocrata e com voto censitário.

Reflexões

A pergunta que queremos provocar com as alunas e alunos da 3ª série este ano é justamente dimensionar o que havia para ser comemorado em 1922 e agora, em 2022. O autoritarismo e centralismo do Império foram retomados nas ditaduras republicanas? Os períodos democráticos foram capazes de colocar novas opções de estrutura para o país? Há limites para nossa independência até hoje?

Se cruzarmos a discussão do nascimento do Brasil como Estado-Nação e suas reafirmações nos centenários seguintes com a discussão sobre modernismos-modernidades do primeiro semestre, acredito que aí os temas não só se completem, mas garantem uma grandeza necessária para estudantes que estão encerrando o Ensino Médio, preparando-se para os grandes exames externos e assumindo, definitivamente e com maior autonomia e maturidade, o seu lugar no mundo, na História, no país.

Vejamos como isso tudo irá se desenvolver num ano também eleitoral, quando vários projetos para o Brasil estarão em discussão.

Cartaz da Semana de 22 – Di Cavalcanti

Programação da Semana de Arte Moderna publicada no Estadão em 12/2/1922.  Foto: Acervo Estadão

Selo oficial para as comemorações do centenário da independência em setembro de 1922

Reforma do Museu Paulista (Museu do Ipiranga). Entrega prometida para as comemorações do bicentenário em setembro de 2022 (https://vejasp.abril.com.br/coluna/terraco-paulistano/reforma-do-museu-do-ipiranga-precisa-de-mais-9-milhoes-para-ser-finalizada)

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