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Ensino remoto: desafios e oportunidades

A pandemia trouxe inúmeros desafios para a educação. Saíram de cena atividades de interação e contato pessoal, o olho no olho, muitas vezes substituído por câmeras desligadas, e entraram janelinhas digitais. Mas toda crise também gera oportunidades, e elas foram muito bem aproveitadas pelo corpo docente do Santa Maria. Por meio de alguns deles, ilustramos e agradecemos o belo trabalho desempenhado por todos!

CLAUDIO NATACCI

Professor de Educação Física na Educação Infantil (Jardim I, Jardim II e Pré) e no 2º ano do Fundamental. É formado em Educação Física, com especialização em Educação Física Escolar e atua no Santa Maria desde 2002.

Como tem sido a experiência de trabalhar com o aluno de forma remota?

Tem sido uma experiência nova, com muitos desafios e adequações. Apesar de estarmos mais distantes, conseguimos nos manter conectados com as crianças e famílias. Precisamos estreitar ainda mais nossos vínculos e avançamos na parceria, compreensão e colaboração das famílias. Com os pequenos do Infantil é necessário sempre contar com uma participação mais efetiva dos pais.

Qual foi o principal desafio enfrentado nesse período?

Um dos principais desafios foi adequar os projetos didáticos para o ambiente remoto sem perder a qualidade e o compromisso com a aprendizagem das crianças. Senti falta de estar mais próximo das turmas, mas investi bastante na construção de vínculos e nas relações afetivas, mesmo que à distância. Outro desafio foi manter as crianças animadas durante as aulas, já que em modo presencial um ajuda o outro, um motiva o outro para a realização das propostas e atividades. Utilizei de diferentes estratégias no ambiente virtual para ser compreendido pelas crianças de três anos e para não deixar o interesse das turmas de seis diminuir. Músicas, vídeos, jogos de imitação, entre outras propostas, contribuíram para aproximar as crianças dos objetos de conhecimento e temáticas estudadas.

Qual foi a adaptação mais significativa realizada até agora?

A adaptação mais significativa até agora, e talvez a mais importante, foi a adequação das propostas das aulas, para que pudessem ser realizadas em casa, um espaço físico bem menor do que o de costume, com materiais de fácil acesso e com muito movimento corporal. Os espaços das crianças nas aulas remotas são seus quartos, salas ou quintais, onde for possível adaptar, e os materiais são os mais diversos, disponíveis em casa.

A adaptação da linguagem e formas de comunicação com as crianças também foi importante. Aos poucos, fui descobrindo qual estratégia chamaria mais a atenção durante as aulas remotas. Além de músicas e vídeos, recorri a bonecos de fantoche e brincadeiras em que as crianças se posicionam como protagonistas. É muito importante permitir que elas falem durante as aulas e possam ser ouvidas pelo professor e pela turma.

Outro ajuste foi o tempo de aula com o Infantil. Temos buscado um equilíbrio para que as crianças não fiquem cansadas e muito expostas em frente ao computador. Cada criança tem seu tempo e seu ritmo e não devemos extrapolar esse limite.

– Na sua opinião, qual será o legado do ensino remoto?

Descobri, como professor, novos caminhos para interagir com as crianças. Passei a utilizar recursos didáticos que não faziam parte da minha rotina de intervenção pedagógica. Por exemplo, quando voltarmos para as aulas presenciais, poderei postar um vídeo para as crianças construírem um brinquedo em casa com sua família e depois levar à escola a tarefa realizada. Esse novo formato proporcionou às crianças se tornarem mais protagonistas e independentes em relação à forma de aprender, pois têm sido convidadas a criar e flexibilizar a realização das tarefas. É bem legal ver as crianças produzindo e ressignificando seus saberes e conhecimentos.

ELIZABETH NISHIYAMA MUNIZ

Pedagoga, especialista em Infância, Educação e Desenvolvimento Social e pesquisadora da Infância. Professora de Educação Infantil há 25 anos, sendo sete no Santa Maria, atualmente no Jardim II.

– Como tem sido a experiência de trabalhar com as crianças de forma remota?

Diferente do ano passado, iniciamos o ano letivo com ensino presencial e remoto simultaneamente na turma do Jardim II, pois algumas famílias optaram que as crianças ficassem em casa devido à pandemia. Tem sido desafiador e, ao mesmo tempo, um aprendizado constante porque planejamos as aulas para que as crianças cujas famílias optaram pelo ensino remoto vivam, na medida do possível, as mesmas experiências de aprendizagens emocionais, afetivas, sociais, motoras e cognitivas da turma presencial. Garantindo deste modo, que as relações e interações se fortaleçam e o pertencimento da turma do ambiente online se estreite mesmo à distância.

– Qual foi o principal desafio enfrentado nesse período?

O maior desafio foi o de manter vínculos com as crianças, porque a Educação Infantil é caracterizada pelas relações entre as crianças e professores, permeada pela escuta sensível, olhar atento e afeto. Assim como cita Alfredo Hoyuelos: “Olhar e nos sentir olhados nos constrói e nos desconstrói”. Relações entre os pares em que questionam, interpretam, dialogam, investigam e aprendem em um movimento colaborativo e em constante interação.

– Qual foi a adaptação mais significativa realizada até agora?

Nos reinventamos diariamente para possibilitar encontros interativos, além da intencionalidade em relação às aprendizagens. Uma das ressignificações foi a escolha de uma história conhecida pelo grupo que estava no presencial para contar para as crianças que estavam no ensino remoto. Depois de ouvirem a história “Carona na vassoura”, de Julia Donaldson e Axel Scheffler, da Editora Brinque-Book, as crianças do remoto gravaram vídeos com o reconto e compartilhamos com as crianças do presencial. Uma troca de conhecimentos a partir do vivido, com significado, sentimento de pertença e protagonismo, interagindo virtualmente com os amigos e professores.

– Na sua opinião, qual será o legado do ensino remoto?

Apesar de não ser o ideal para a Educação Infantil, é inegável a contribuição do ensino remoto para continuidade das aulas. A internet e a tecnologia eliminaram fronteiras que até pouco tempo atrás não seria possível acontecer. Acredito que o legado será a importância da utilização das ferramentas digitais pelos professores, a fim de manter e despertar o interesse por parte das crianças durante o ensino remoto, ressaltando que o tempo de atenção é menor na faixa etária da Educação Infantil, comparada às outras séries e, principalmente, que conviver é uma experiência insubstituível de afeto e que nos torna diferentes, no autêntico e no diverso.

PRISCILLA PACHI

Atua como voluntária na EJA (Educação para Jovens e Adultos) nas aulas de reforço de Língua Portuguesa para imigrantes. É doutoranda e mestra em Geografia, geógrafa, bacharel em Turismo e interculturalista.

– Qual é o principal desafio enfrentado pelos alunos despatriados?

O principal desafio é o idioma. Aprender o português é fundamental para a inserção na sociedade e para o mercado de trabalho.

– De que forma a EJA do Santa Maria os ajuda nessa fase da vida?

A EJA os ajuda a conquistar o aprendizado da língua portuguesa, a se comunicarem e promove o contato com brasileiros e a nossa cultura.

– Como está sendo realizar esse trabalho em meio à pandemia?

A pandemia nos forçou a nos reinventarmos, mas neste momento o trabalho voluntário se destina ao auxílio do básico, ou seja, o alimento na mesa dos mais necessitados, pois a fome não espera.

– Qual é sua atuação voluntária?

Desde 2014, estou engajada num trabalho voluntário que consiste em treinamentos de conteúdo intercultural para imigrantes e refugiados na Missão Paz (obra dos Missionários de São Carlos) por meio da ONG SIETAR Brasil, que se dedica à pesquisa, ao treinamento e às atividades educacionais no campo das relações interculturais. A partir de então, tive a oportunidade de acompanhar a chegada de vários fluxos migratórios em São Paulo.

A experiência com o trabalho voluntário e o fato de testemunhar o desespero dos imigrantes, de diversas nacionalidades, em busca por melhores condições de vida e sobrevivência, levaram-me a abraçar a causa dos migrantes e também a pesquisar sobre os recentes deslocamentos humanos. Em pesquisa de mestrado, estudei a imigração haitiana para São Paulo e a precarização desta mão de obra. Atualmente, no curso de doutorado, dedico-me à análise da imigração de angolanos para o Brasil. Em 2019, ingressei como voluntária no Santa Maria dando aulas de reforço de língua portuguesa para o público imigrante na EJA. É preciso destacar que a principal barreira de integração social para essas pessoas é o idioma e as aulas de reforço, por serem ministradas em pequenas turmas, cumprem um papel fundamental em auxiliá-los na melhor compreensão da língua e na comunicação.

Em 2020, a sociedade, de modo geral, se viu forçada ao distanciamento físico, no entanto, este distanciamento não significa que devemos ignorar e abandonar o outro, pelo contrário, a empatia e a compaixão devem se tornar a tônica deste momento e o trabalho voluntário e a solidariedade se tornam os maiores aliados no combate de uma das principais consequências da pandemia, a fome. Desse modo, independente do trabalho voluntário que cada um de nós exerceu até agora, é preciso lembrarmos que a pandemia que acomete o mundo há mais de um ano tem nos mostrado que estamos todos, independente de cor, etnia e gênero, sob a ameaça do vírus, mas em condições muito diferentes e que este é o momento de nos voluntariarmos e nos unirmos para ajudar os que mais precisam.

RITA PISANO

Professora de Artes e Teatro do Ensino Médio. Pedagoga, pós-graduada em Arte, Cultura e Educação. Está no Santa Maria há 19 anos, tendo atuado nos cursos extracurriculares para Educação Infantil e Fundamental II, no grupo de teatro Palhaços Graças a Deus por 15 anos e desde 2014 no Ensino Médio, nas aulas eletivas, no Currículo Básico e Diversificado.

– Como tem sido a experiência de trabalhar com o aluno de forma remota?

Foi e tem sido um desafio! No teatro, que é um componente em que o corpo é peça fundamental e a relação entre as pessoas é instrumento de criação, tivemos que entender como usar a tecnologia a nosso favor e ter muita criatividade. Entender que a interpretação se dá mediada por uma câmera é importante para instigar os alunos na criação de personagens e situações que explorem essa relação com a câmera e com seu ambiente em casa e seus parceiros de cena. Para o corpo ficar em movimento, criei alguns aquecimentos juntos, caminhadas pela casa, deslocamentos no espaço. A criatividade, minha e dos alunos, é a peça mais importante e juntos vamos descobrindo possibilidades. Este ano já fizemos uma saída ao teatro (para assistir a uma peça online) e faremos outras para nos ajudar a entender as possibilidades das artes cênicas nesse formato. Em Criação, também passamos por um processo de reinvenção e descoberta. Aqui os aplicativos de edição de imagem e fotografia ganharam destaque, visto que os estudantes tinham poucos materiais plásticos em mãos. Usamos as mídias sociais como suporte, muita pesquisa e observação. É importante dizer que tem sido um tempo de bastante aprendizado, apesar das dificuldades todas!

– Qual foi o principal desafio enfrentado nesse período?

O maior desafio foi incluir o corpo como instrumento ativo nas aulas, pois é muito fácil nos acomodarmos e ficarmos apenas sentados em frente ao computador. Então, criar estratégias e exercícios em que o corpo, a movimentação fossem necessários e bem utilizados nas aulas foi um dos grandes desafios.

– Qual foi a adaptação mais significativa realizada até agora?

Tivemos excelentes trabalhos e experiências nesse modo remoto. Aprendizados mesmo. A experiência de observação e registro em foto na aula de Criação foi muito legal. Vou dar esse exemplo: inspirados na fotógrafa americana Adrieene Sallinger, os alunos criaram esculturas nos seus quartos com as suas coisas, as que mais importavam e que mais usavam durante essa quarentena. Cada estudante criou sua foto depois de responder três perguntas reflexivas que abordavam esse momento que estamos vivendo. O resultado foi bastante emocionante.

– Na sua opinião, qual será o legado do ensino remoto?

A ferramenta da tecnologia chegou para ficar! O Classroom ficará como um grande suporte e organizador da atividade escolar. As conversas e reuniões online com pessoas que estão distantes e puderam estar próximas por conta da internet, contribuindo pedagogicamente nos trabalhos de aula com palestras e rodas de conversa, também apareceram como possibilidade real de recurso.

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