Educação de Jovens e Adultos, Eu Professor

“O cabo da enxada era meu lápis e a terra, a folha do meu caderno”

Educadora com larga experiência na Educação Infantil relata com sensibilidade sua experiência na alfabetização de jovens e adultos.

Autoria: Eliane Lima, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Santa Maria, ex-professora da EJA.

Despedindo-me de um espaço onde a inteireza e a poesia tomavam conta dos dias, as cem linguagens embalavam a vida das crianças e as nossas como professoras da Educação Infantil. As experiências leitoras e escritoras de sujeitos tão pequenos nos atravessava, tocava e acontecia (Jorge Larrosa) na delicadeza de uma infância potente e respeitosa quando brincavam com as rimas, as aliterações, quando liam versos, parlendas, trava-línguas; quando imitavam “comportamento leitor” e, até mesmo, quando identificavam nos espaços externos as letras do nome próprio e os símbolos que comunicavam.

Recém-chegada a um lugar desconhecido, onde me senti convocada a entender os adultos que lá estavam, saber um pouco de cada um e de todos, entender o pulsar de cada coração, os desejos, os sonhos, os afetos, os medos… Assim, da Educação Infantil naveguei para as águas revoltas da Educação de Jovens e Adultos; das crianças com quatro e cinco anos, parti para as “crianças” de 50 a 82.

E nesse descompasso, tentei seguir a mesma química do hidrogênio quando compartilha suas experiências com o oxigênio e faz surgir a água: busquei o equilíbrio, o movimento do acolhimento, da escuta, do respeito; fiz surgir a amizade, o encontro e o tempo de aprender.

Começamos a compor a história dos meninos e das meninas do 1º ano da EJA, um grupo que transpirava amor, encantamento e vontade de escrever e ler o mundo e o entorno. Adultos-crianças que trabalhavam com letras de E.V.A para formar acervos e memórias do movimento, ouviam músicas para serem afetados pelo afeto, faziam leituras por meio de imagens para com-par-trilharem com o outro as experiências críticas e reflexivas de cada um e de todos.

Pessoas com relatos dolorosos de uma vida de sofrimento e olhares exuberantes de um caminho de metas, conquistas e superações. Adultos que, vencendo a vergonha, ocupavam os espaços da sala e compreendiam o quanto eram capazes, o quanto o esforço, a dedicação e o movimento de parceria os levariam a apreender.

E nessa narrativa, escrita a múltiplas mãos, a turma se constituía e se descobria, surgiam as singularidades, subjetividades e as riquezas de uma infância vivida no Norte, Nordeste, Sul, Sudoeste, crianças-adultos que andavam com roupas feitas de sacos de batatas, chinelos de garrafas plásticas ou pés descalços. Infância brincada na roça e sonhada na terra, como tão lindamente disse o aluno Severino: “O cabo da enxada era meu lápis e a terra, a folha do meu caderno”.

Entre enxadas, roças, roupas nos varais e zelo pelos irmãos menores, os sonhos começavam a ganhar forma, volume e densidade. Na cidade grande, na sala da EJA do Colégio Santa Maria, descobriam, como diz Maria da Graça, as palavras escritas no metrô, nos ônibus, nas entradas dos bancos, nos caixas eletrônicos: “Professora, hoje no ônibus consegui ler Madalena! Senti tanta emoção que comecei a chorar. Não vou mais precisar ver o número!”

E, assim como dizia Valdivínia, “começavam a pertencer à cidade”. Ocupavam os espaços dos parques, das praças, das lojas e museus, circulavam com autonomia e segurança pelos territórios e saíam do lugar de sujeitos invisíveis.

Das barreiras construímos pontes, aprendemos que “um sonho sonhado sozinho é um sonho, um sonho sonhado junto é realidade”. E eu, para concluir, percebi a inteireza e a poesia tomando conta dos meus dias novamente, as cem linguagens embalando a vida dos adultos-crianças que aprendi a amar e respeitar, entendo realmente o significado da palavra “doação” e “empatia”.

Obrigada por esta rica experiência e por serem inspiração em minha vida!

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