Educação de Jovens e Adultos, Eu Professor

O estudante da EJA como protagonista de seu próprio aprendizado

Professor do Santa Maria relata seu propósito ao deixar de lecionar na universidade para assumir uma cadeira na Educação de Jovens e Adultos.

Autoria: Rafael Lima, professor de Língua Portuguesa da EJA do Santa Maria.

Há cinco anos, eu deixava a carreira de professor universitário para embarcar em uma nova e desconhecida aventura: a Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Santa Maria. Mas antes de falar sobre o que esse novo desafio significou e significa para mim, gostaria de retornar ao momento de transição entre minha vida na universidade, o que vi e aprendi, até o dia em que fui convidado a voltar à educação básica.

Recordo-me de que, nos primeiros dias de vida acadêmica como professor, ainda bem jovem, me assustava pensar na responsabilidade de formar novos profissionais. Pior que isso era o medo de não saber responder a alguma pergunta complexa feita por algum aluno. É a insegurança de qualquer iniciante. Entretanto, para minha surpresa, a primeira angústia se retirou, dando lugar a outra, tão logo as primeiras redações chegaram às minhas mãos. Enquanto lia os textos, comecei a me convencer de que a educação de base, no Brasil, estava muito pior do que eu podia imaginar.

Sentindo-me como um náufrago numa ilha deserta, sem saber o que fazer ou para onde ir, perguntava-me a todo instante: por onde começar? o que fazer? para onde correr? Confesso que, ao ver o grau de aprendizado de nossos alunos universitários, tomei um verdadeiro choque de realidade e vi que teria muito trabalho pela frente.

Mão na massa

Nos anos em que lecionei, fiz o que pude para tentar resgatar o tempo perdido, preenchendo lacunas de conceitos básicos da língua portuguesa, apresentando estratégias elementares de construção textual, indicando livros e gramáticas, vídeos e sites. Era comum deixar de lado o meu intervalo do lanche para esclarecer as dúvidas dos alunos individualmente. A pedido deles, criei um curso de língua portuguesa aos sábados, fora da faculdade, para acelerar o processo. Fiz o que pude para ajudá-los, e acredito que tudo aquilo, mesmo que pouco, suscitou-lhes o desejo da busca pelo conhecimento.

Foi então que recebi um convite muito especial da diretora da EJA do Santa Maria, Maria Cecília, e do coordenador Cláudio Perinasso, para fazer parte do corpo docente da instituição. Era o momento e o lugar propícios para iniciar, de forma direta, o trabalho de formação de muitos futuros universitários, como aqueles aos quais lecionei por anos e que tanto me impeliram a fazer algo por eles. Aceitei de pronto!

Indo ao ponto nevrálgico

Logo de início, o primeiro desafio foi o de realizar as devidas adaptações de tempo e metodologia, pensando sempre nos objetivos próprios da EJA. Foi um aprendizado também para mim. Depois dos primeiros contatos com os alunos e de analisar suas atividades, criei uma apostila totalmente adaptada às suas necessidades, no intuito de preencher aquelas lacunas já conhecidas, presentes em meus antigos alunos da universidade, tais como: atividades de leitura, compreensão e interpretação textual; produção de textos argumentativos (artigos de opinião e dissertações-argumentativas); regras de pontuação; dúvidas comuns de gramática e tantas outras coisas indispensáveis no aprendizado de língua portuguesa. Queria que fossem capazes de produzir um texto com coerência e ordem. Procurei e procuro ser, para meus alunos da EJA, um “preparador” para a vida acadêmica ou, pelo menos, alguém que lhes incite o desejo de aprender.

Há muito o que dizer sobre tudo o que tenho vivido e aprendido nesses tempos, da universidade à EJA, sendo impossível resumi-los aqui. Todavia, quero compartilhar aquilo que, a meu ver, é o mais importante no que diz respeito à aprendizagem dos alunos e a grande causa do baixo nível de desempenho escolar. Para isso, unirei minha experiência em sala de aula aos estudos do grande professor Pierluigi Piazzi, mais um daqueles gênios da educação que a maioria dos nossos educadores ainda desconhece e que merece vir à luz.

Pier desenvolveu métodos de aprendizagem baseados na neurociência. Sobre isso, escreveu quatro maravilhosos livros: “Ensinando Inteligência”, “Aprendendo Inteligência”, “Estimulando Inteligência” e “Inteligência em Concursos”. Ele basicamente ensina a “aprender a aprender”, a subir a escada da vida intelectual de forma simples e contínua.

Numa entrevista concedida a um jornal de Londrina, o professor apresentou sua antiga constatação, chocando até mesmo o entrevistador: “No Brasil, há muitos alunos, mas poucos estudantes. Para ele, a grande tragédia de nossa educação está no fato de que há muita gente matriculada nas escolas por aí, que têm frequência garantida nas aulas, que entrega os trabalhos e as atividades em dia, mas que não aprende de verdade. Se forem submetidos a uma prova surpresa, a nota chegará perto de zero, pois não teriam estudado para a prova, o que, para ele, era inadmissível.

No comando do aprendizado

O professor Pier dizia que o aluno devia frequentar as aulas, mas, em casa, tinha de estudar sozinho tudo o que fora proposto na sala de aula, e no mesmo dia, respeitando o ciclo circadiano. Por isso existem as nossas lições de casa, não é mesmo? Todo o método de atividades pós-aula das apostilas dos chamados cursinhos foi criado pelo professor Pier. Ele se especializou em lecionar nesse nível de ensino. Entretanto, dizia ser um absurdo existirem cursinhos, já que, se o indivíduo ficou anos e anos sentado numa cadeira escolar, como pode não saber nada daquilo que lhe foi apresentado nas aulas? Tem de rever tudo? E, às vezes, do zero? Para ele há algo errado aí. Essas pessoas foram “alunos” por muitos anos, mas nunca se tornaram verdadeiros “estudantes”.

Devo dizer que concordo em tudo com o professor Pierluigi e utilizo suas técnicas em minhas aulas na EJA. Procuro mostrar aos meus alunos que não basta sentar na cadeira escolar e esperar que a mágica aconteça. Deixo claro para eles que o professor é apenas um “explicador”, que apresenta os conteúdos de sua disciplina, esclarece suas dúvidas, indica leituras, mas que a apreensão e solidificação da matéria é obrigação deles mesmos. Motivo-os a estudarem por conta própria, sozinhos, diante do material, resolvendo as atividades, para perceberem aquilo que já sabem e o que ainda têm dúvidas. Só assim serão capazes de absorver e de se apropriar daqueles conteúdos.

Um dos conselhos que mais ouvem de mim é de que devem ler, ler e ler, pois a leitura é o coração do aprendizado. Além disso, recomendo que nunca vivam na dependência total do professor, ainda que sua ajuda seja importante, ou baseados apenas em nossas breves apostilas, pois essa é a atitude daquele que viverá sempre encostado, esperando que os outros lhe deem, de bandeja, o conhecimento que nunca desejou. Não quero que aconteça com eles o que via na universidade: tantos e tantos alunos sem interesse pelos estudos, mas muito interessados em, no final de seus cursos, receberem um belo papel que comprovará o conhecimento que eles não têm.

Por fim, posso dizer que minha experiência entre a universidade e a educação básica na EJA me fizeram perceber que, além de todo o nosso trabalho para reconstruir as pontes inacabadas, boa parte da solução está nas mãos dos próprios alunos. Quem quer realmente aprender precisa buscar o conhecimento. Nossa missão é tirá-los do comodismo, para que todos façam a corajosa transição entre a condição de simples aluno para o ilimitado estado de estudante. E somente desse modo, com o comprometimento de alunos-estudantes e professores, é que as lacunas da aprendizagem poderão ser verdadeiramente preenchidas.

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