A cooperação é essencial em uma montagem. É ali, no palco, com o texto decorado ou não, ensaiando, errando, esperando o colega concluir a fala e tendo paciência se ele esqueceu o texto, que se treinam habilidades interpessoais, ou soft skills, conceito muito usado em processos seletivos atualmente. Capacitá-los aos poucos a lidar com seus medos e “se jogar” em um projeto que envolve pessoas com temperamentos diferentes, pode garantir que no futuro tenhamos adultos mais preparados para enfrentar desafios. Pergunto para o Victor Schiavo se ele ficou tímido para encarar a peça. “Não, eu sou o tipo que entra lá e faz”, respondeu todo seguro.
No decorrer de todo o processo, algumas ideias foram incorporadas à peça, uma abertura que o professor deu para todos os grupos, por isso nem todas as apresentações serão iguais. Dante Dell Aquilla Stocco, por exemplo, é um aluno que vai tocar um instrumento ao vivo. Conversando com a reportagem, ele fala justamente sobre a sonoplastia do espetáculo: “eu gosto muito de uma cena que o professor adiciona várias músicas bem legais, como do Superman, porque o William Shakespeare é como se fosse o Superman do teatro”, conclui.
O objetivo do trabalho com os alunos do Santa Maria não é torná-los atores, mas vivenciar a linguagem teatral, desenvolvendo capacidades, independentemente das escolhas que eles fizerem ao sair da escola. Nas palavras do professor Sérgio, é “aprender a ser espectador também, e desenvolver senso crítico diante de tudo o que se vê e se vive”.
ESQUECI O TEXTO! E AGORA?
Desde o início do ano houve uma preparação com a leitura da biografia de Shakespeare, mas também com jogos cooperativos, onde se trabalha a autoconfiança. “Alguns alunos choravam, tinham medo. É um caminho longo e, ao mesmo tempo, gratificante ver como eles se desenvolveram, dentro e fora de cena, a segurança que eles demonstram, essa expectativa de querer ver o dia chegar”, relata o professor Sérgio. “O improviso na hora do esquecimento é um caminho, mas para o aluno estar preparado para esse momento, ele precisa entender cada cena em particular, o que a sua personagem está fazendo dentro daquela história, qual a relação dela com as outras personagens. Sem esse processo, o aluno não consegue improvisar”, completa.
MÃO NA MASSA PARA O FIGURINO
Todas as roupas e máscaras que serão usadas no espetáculo foram customizadas e produzidas pelos próprios atores, durante as aulas de Artes. Todo o material foi reutilizado e nada é costurado, apenas usados cortes, laços e nós. “Eu coloquei os tecidos para os alunos criarem todas as roupas a partir de uma proposta circense”, diz Sérgio, que usou elementos de outros cenários para o espetáculo.
“No dia da peça nós vamos com uma roupa preta por baixo, e a gente vai vestir os nossos figurinos por cima”, conta Victor Schiavo, que gostou da experiência de produzir tudo nas aulas. “O volume da máscara foi feito com papel reciclado que a gente levou de casa. A gente acabou sendo bem desafiado. Em qualquer trabalho de Artes, a gente faz bem-feito, se esforça, mas ali é outra coisa, ali você acaba percebendo que se você fizer uma máscara ruim, você vai ter que atuar com aquela máscara. Se o figurino for ruim, também, você vai ter que ficar com ele”.
Colega de Victor, Ana Beatriz Pinna já está com a roupa prontinha, mas como existe envolvimento no projeto e cooperação, ela começou a ajudar os colegas de turma. “Foi uma experiência muito legal criar o nosso próprio figurino porque quando a gente está enturmado e sabe o que o nosso personagem usaria, é desafiador. Com o tempo e com os ensaios gerais a gente conseguiu fazer o trabalho!”, explica a aluna, com todo o jeito de “missão cumprida”.