Um olhar sobre a escuta ativa e empática na prática docente para compreender emoções e significados na infância.
Autoria: Ana Karla da Silva – Professora de Educação Infantil do Colégio Santa Maria
Ao refletir e me debruçar sobre a escrita, recordo uma belíssima citação de Humberto Maturana (1928-2021), biólogo, neurocientista e filósofo chileno que diz : “as interações recorrentes no amor ampliam e estabilizam a convivência.”
Essa citação me leva a pensar nos arquipélagos de certeza que precisamos cultivar na Educação Infantil – ações fundamentadas no afeto, na compaixão, na linguagem que vai além das palavras, na atenção cuidadosa, na valorização das culturas infantis e nas múltiplas narrativas que atravessam a infância.
Esse é o fio condutor que nos atravessa e nos convida a enxergar cada criança como uma preciosidade única e singular – capaz de sentir, viver, explorar e expressar-se por meio de diversas linguagens.
Antes mesmo das palavras, as crianças já comunicam o mundo. Falam com o corpo, com os olhos que brilham diante do novo, com o choro que pede abrigo e aconchego, com o sorriso que acolhe. Elas dizem” com o toque, com o balbucio, com o silêncio atento.
É no gesto de estender as mãos ou de encostar no rosto que pedem companhia. É no balançar do corpo que revelam alegria. É no olhar curioso que fazem perguntas que ainda não sabem nomear. Demonstram desconfortos ou necessidades por meio de birras, mordidas, choros – formas intensas de dizer: “algo em mim precisa ser notado”. E, muitas vezes, esse “algo” também aparece na inquietação que transborda o corpo ou no recolhimento silencioso, porém profundo.
São manifestações que exigem escuta genuína, acolhimento, observação constante, mediação atenta e presença inteira.
Atentar-se com sensibilidade é, portanto, um ato de cuidado, de entrega e de disponibilidade. É optar por olhar para além do comportamento, interpretar silêncios, decifrar gestos e acolher sentimentos que ainda não se tornaram fala.
Na prática docente, essa atenção sensível não é um detalhe – é o que estrutura vínculos, fortalece o sentimento de pertencimento e permite que a criança se revele com liberdade e autenticidade.
Mas compreender o que a criança expressa não significa agir por ela. É preciso resistir à tentação de preencher silêncios, antecipar gestos ou resolver imediatamente os pequenos conflitos. Aprender exige tempo – o “tempo da infância”. O papel do adulto nesse processo é o de uma presença atenta que acompanha e media, sem substituir.
Quando o professor se permite ouvir com o coração, aprende com as crianças aquilo que nenhuma teoria pode ensinar: que cada olhar carrega uma história, cada gesto revela um significado, e que educar é, acima de tudo, um encontro entre humanidades – um espaço onde reconhecemos o outro em sua essência, com suas emoções, necessidades e modos singulares de existir no mundo.
Como afirmava o pedagogo e psicólogo italiano, Loris Malaguzzi: “o professor deve aprender a escutar as cem linguagens da criança e a valorizar cada uma delas.” Que saibamos, então, ser presença sensível e atenção viva – porque, mesmo quando ainda não sabem dizer com palavras, as crianças sempre têm algo importante a nos contar.

















