Como parte de uma atividade interdisciplinar, os alunos do 9º ano do Colégio Santa Maria traçaram um paralelo entre o Brasil e a Índia, a partir do livro “Capitães da Areia” e do filme “Quem Quer Ser um Milionário?”. O resultado foi uma análise potente sobre infância, desigualdade e esperança — temas que aproximam realidades tão diferentes em um mesmo olhar crítico.
Autoria: Paulo Roberto Andrade de Moraes – Professor de Geografia; Rita Sógi – Professora de Língua Portuguesa
Um dos conteúdos mais interessantes e curiosos da unidade curricular de Geografia no 9º ano é o trabalho sobre a Índia. País que, oficialmente desde maio de 2023, é o mais populoso do mundo, superior a 1,4 bilhão de habitantes (mais de sete Brasis), com diversidade étnica, linguística e religiosa. É uma economia emergente, participante dos BRICS e com grandes contrastes sociais. Lembrou algum país dos trópicos?
Sim, apesar de serem países bem diferentes, Brasil e Índia apresentam algumas características em comum. Essa comparação pode ser estimulada na análise de obras literárias, como ocorre na unidade curricular de Língua Portuguesa. Algumas dessas similaridades do Brasil e da Índia podem ser identificadas e comparadas, por meio dessas duas obras, tão distantes, tanto temporal como geograficamente. O filme Quem Quer Ser um Milionário (2008), dirigido por Danny Boyle, e Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado, retratam realidades marcadas pela pobreza extrema, abandono infantil e profundas desigualdades sociais.
Ambas as obras são protagonizadas por crianças; em Capitães da Areia, um grupo de meninos vive nas ruas de Salvador, ocupando uma casa abandonada. Pedro Bala, Professor, Gato e os demais personagens roubam, enganam e sobrevivem de pequenos crimes. Suas histórias, embora cruéis, revelam laços de solidariedade, resistência e sonhos, mesmo que abafados pela miséria.
De modo semelhante, em Quem Quer Ser um Milionário, Jamal e seu irmão Salim crescem nos “slums” (favelas) de Mumbai, enfrentando a violência policial, a exploração de crianças por redes criminosas e o abandono. Desde cedo, precisam improvisar estratégias de sobrevivência — desde enganar turistas até fugir de aliciadores que mutilam crianças para que possam pedir esmolas.
Em ambas as narrativas, a infância é retratada como uma fase de luta, onde o brincar dá lugar à luta por comida, abrigo e segurança. Pontos que são bem trabalhados na análise da obra de Jorge Amado e transpostos ao filme. Já o desenvolvimento econômico, social e as transformações na paisagem são muito presentes no filme indiano. É neste aspecto que a análise e comparação com a realidade brasileira é evidenciada.
Embora se passem em países diferentes — Brasil e Índia —, as duas obras revelam semelhanças estruturais marcantes. Ambos os países enfrentam um histórico de desigualdade social enraizado em sistemas coloniais, racistas e excludentes. A concentração de renda, o acesso desigual à educação e a estigmatização dos pobres criam realidades onde crianças como Jamal, Pedro Bala e seus companheiros são considerados descartáveis.
O paralelo entre Salvador e Mumbai é evidente: cidades marcadas por contrastes extremos entre riqueza e miséria, onde bairros luxuosos coexistem com favelas, e onde o sucesso depende muito mais da sorte ou do crime do que da justiça ou do mérito.
Apesar de retratarem realidades duras, tanto Capitães da Areia quanto Quem Quer Ser um Milionário, abrem espaço para a esperança. Nos dois casos, essa esperança surge não por meio do sistema, mas “apesar” dele. Chama muito a atenção, o momento em que policiais acham inadmissível um favelado (palavra deles) ter chegado mais longe que médicos ou professores, em um programa de perguntas e respostas.
Estudo complementar
A importância do uso de filmes e livros paradidáticos como complemento aos estudos dos conteúdos das unidades curriculares é de uma grande riqueza. Ao lerem, os alunos visualizam em sua mente o que leem; a praia, Pedro Bala e sua turma e os eventos descritos na obra. Ao assistirem o filme, a favela de Mumbai, as mansões, os prédios de classe média substituindo as antigas favelas (processo de gentrificação) são facilmente associados aos temas já discutidos em sala de aula, não somente no 9º ano, mas sim, durante toda a escolarização realizada até esse ponto.
Em Capitães da Areia, Jorge Amado encerra sua narrativa com uma virada simbólica: Pedro Bala torna-se líder sindical, indicando que a revolta social pode se transformar em resistência política. Já no filme, Jamal vence o programa de TV e reencontra Latika, simbolizando que o amor e a sorte podem triunfar sobre o desespero.
Tanto o livro quanto o filme mostram que, apesar das dificuldades, ainda é possível sonhar e lutar por um mundo mais justo. E é justamente por isso que essas obras são tão importantes no processo de aprendizagem.














