Entre apelos do mercado e direitos fundamentais, a escola reafirma a infância como tempo de experiências, vínculos e cuidado com a Casa Comum.
Autoria: Nathália Furtado – Professora do 1º ano do Ensino Fundamental do Colégio Santa Maria
Não é raro ouvirmos que as crianças são “consumidores em potencial”. Muitas vezes, de forma quase automática, acabamos nos rendendo a essa lógica e as confinando a um papel que pouco dialoga com a complexidade e a riqueza da infância. É improvável que a maioria dos adultos, ao planejar suas famílias, tenha como intenção educar crianças orientadas prioritariamente para o consumo. No entanto, ao acompanhar o cotidiano infantil, somos confrontados por uma realidade contundente: o mercado não está de brincadeira, e a disputa pela atenção e pelo desejo das crianças é intensa.
Brinquedos variados, colecionáveis sem fim, dispositivos eletrônicos e roupas que se tornam obsoletas a cada novo lançamento do entretenimento infantil compõem um cenário no qual vitrines, propagandas e conteúdos digitais sugerem que a felicidade está diretamente ligada a ter sempre mais. Mas a infância não se sustenta nesse pilar. As crianças são muito mais do que consumidores.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 4º, reforça que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, com absoluta prioridade, direitos como saúde, educação, lazer, cultura, dignidade, respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária. Trata-se de direitos que ultrapassam o ato de consumir e que nos convidam a olhar para a infância de forma integral.
Mais do que objetos acumulados, o que marca profundamente a infância são as experiências vividas. Correr em um parque, fazer trilhas, brincar com a terra, regar plantas, cultivar uma horta, cozinhar juntos, montar um quebra-cabeça desafiador, visitar um museu, viajar, aprender a andar de bicicleta, brincar com amigos, ouvir histórias, participar da vida comunitária e descobrir o mundo com curiosidade são vivências que dão sentido, valor e densidade ao crescer.
Nesse contexto, a perspectiva de uma ecologia integral nos convida a reconhecer que tudo está interligado: as pessoas, os animais, as plantas, a água, o ar e os vínculos que construímos ao longo da vida. Cuidar da existência em todas as suas dimensões é um chamado permanente. Escutar e valorizar o que as crianças realmente precisam é também uma forma de cuidar da nossa Casa Comum, pois nelas reside a esperança de um futuro mais justo e sustentável.
É nesse horizonte que se insere a noção de economia circular, que nos convida a repensar o uso dos recursos, evitar desperdícios e encontrar novas formas de acessar aquilo de que precisamos. Ao participarem dessas experiências, as crianças aprendem que o valor das coisas não está apenas no preço, mas nas histórias, nos afetos e no impacto que geram no planeta.
Mais do que receber brinquedos novos, elas se encantam ao brincar juntas, compartilhar algo que já fez um amigo feliz, reconhecer afinidades e fortalecer laços. Assim, constroem, desde cedo, o senso de comunidade e pertencimento.
Fica, portanto, o convite para que possamos dar voz às crianças, reencontrando a simplicidade da vida e trilhando caminhos mais leves, cuidadosos e conectados à natureza e às relações que verdadeiramente importam.
















